Depois de ficar livres do medo, devemos libertar‑nos do desejo. Os desejos alimentam ainda mais preocupações do que os temores. Trata‑se do desejo de possuir, desejo de dominar para garantir a posse, o que inclui a vigilância constante para que outros não venham tomar posse daquilo que é objeto dos nossos desejos. A cultura ocidental contemporânea, baseada numa economia de consumo supérfluo faz nascer pseudonecessidades porque precisa de muitos compradores para poder produzir muito. O mundo, nem sempre ou quase nunca, acontece de acordo com nossos desejos. Por isso, não podemos levar tão a sério nossos desejos.
A economia está fundada na cultura dos desejos. Nas cidades, ocorrem exposições permanentes, despertando sempre novos desejos. Não é por acaso que os shoppings são as catedrais de hoje. Ali se celebra o culto do dinheiro, que permite satisfazer desejos e suscita mais desejos ainda. Estamos numa cultura do desejo. Não é estranho que a vida religiosa, a vida comunitária, as relações gratuitas entre pessoas tendam a desaparecer. Durante o dia inteiro as crianças aprendem a ter mais e mais desejos. A publicidade é a parte mais importante na economia. O marketing abriga as pessoas mais capazes. Produzir é fácil, mas despertar desejos exige uma criatividade sempre ativa. É comum apelar-se aos sentimentos mais primários – Orgulho, Vaidade, Inveja, Avareza, Medo, Gula, Luxúria, Preguiça, Culpa, para vender mais e mais que o necessário.
Na companhia do ciúme, que é o desejo de possuir só para si a pessoa amada, aparece a inveja e a competição com quem ameaça esse desejo. Numa sociedade construída para suscitar desejos, o ser humano não desperto está perdido, sem rumo. Na sua maioria, os seus desejos são frustrados por falta de dinheiro. O desejo frustrado gera mal‑estar, inquietação, preocupação. Os contemporâneos andam preocupados por tudo aquilo que não podem comprar e que se oferece aos desejos. Sem ficar livre dos temores e dos desejos não se pode ter acesso à verdade.
O temor tem por objeto todos os que são diferentes: pessoas de outra etnia, outra religião, outra cultura, outro nível social. Vencer os limites da sua cultura e ficar aberto é o desafio. Sem essa liberdade, não é possível ter acesso à verdade. O ser humano tem um valor intrínseco que vai além das aparências e que se operacionaliza na forma como se relaciona com os outros. A capacidade amorosa, o respeito, a aceitação das diferenças, a comunicação, o não julgamento, o desejo de ver o outro feliz, a bondade, a verdade e a alegria são algumas qualidades, entre tantas, que favorecem o florescimento de relações construtivas.
Essas são as condições que abrem o acesso à verdade. De alguma maneira todas as sabedorias ensinaram coisas semelhantes. Não é novidade essa educação da liberdade. O não identificar-se com os impulsos.
Buda foi enfático com a problemática do desejo. Uma das bases da felicidade seria apreciar sem desejar. A Globalização está centrada no consumo e apelação aos desejos, motivando um movimento de regionalização e defesa.
A verdade manifesta‑se dentro de um movimento de esperança que envolve a libertação progressiva. As pessoas não devem aceitar‑se tal como estão sendo envolvidas. Mas é tudo uma opção. São chamadas a um desafio imenso que envolve a totalidade do ser humano, diante de diferentes apelos filosóficos, artísticos, religiosos e científicos. Esse posicionamento é da própria pessoa, chamada a conquistar a sua liberdade, a tornar‑se plenamente humana e em harmonia com a Natureza.
Se levarmos nossas vidas com amor, ainda que não consigamos inteiramente realizar nossos desejos, valeu a pena. Demos um sim à vida e nos sintonizamos com a realidade. O autoconhecimento, a auto-aceitação, a sinceridade com os próprios sentimentos e o desejo profundo de aprender a se amar é o verdadeiro caminho para a plenitude e o significado da vida.
Esse poema foi escrito por um aluno da APAE, chamado, pela sociedade, de excepcional. Excepcional é a sua sensibilidade! Ele tem 28 anos, com idade mental de 15.




