O Melhor da Natureza

Comunidade Ativa

07 nov, 2009

Desejos e temores

Escrito por: Orlando Vettorazzo Em: Comunidade Ativa

Depois de ficar livres do medo, devemos libertar‑nos do desejo. Os desejos alimentam ainda mais preocupações do que os temores. Trata‑se do desejo de possuir, desejo de dominar para garantir a posse, o que inclui a vigilância constante para que outros não venham tomar posse daquilo que é objeto dos nossos desejos. A cultura ocidental contemporânea, baseada numa economia de consumo supérfluo faz nascer pseudonecessidades porque precisa de muitos compradores para poder produzir muito. O mundo, nem sempre ou quase nunca, acontece de acordo com nossos desejos. Por isso, não podemos levar tão a sério nossos desejos.

A economia está fundada na cultura dos desejos. Nas cidades, ocorrem exposições permanentes, despertando sempre novos desejos. Não é por acaso que os shoppings são as catedrais de hoje. Ali se celebra o culto do dinheiro, que permite satisfazer desejos e suscita mais desejos ainda. Estamos numa cultura do desejo. Não é estranho que a vida religiosa, a vida comunitária, as relações gra­tuitas entre pessoas tendam a desaparecer. Durante o dia inteiro as crianças aprendem a ter mais e mais desejos. A publicidade é a parte mais importante na economia. O marketing abriga as pessoas mais capazes. Produzir é fácil, mas despertar desejos exige uma criatividade sempre ativa. É comum apelar-se aos sentimentos mais primários – Orgulho, Vaidade, Inveja, Avareza, Medo,  Gula, Luxúria, Preguiça, Culpa, para vender mais e mais que o necessário.

Na companhia do ciúme, que é o desejo de possuir só para si a pessoa amada, aparece a inveja e a competição com quem ameaça esse desejo. Numa sociedade construída para suscitar desejos, o ser humano não desperto está perdido, sem rumo. Na sua maioria, os seus desejos são frustrados por falta de dinheiro. O desejo frustrado gera mal‑estar, inquietação, preocupação. Os contemporâneos andam preocupados por tudo aquilo que não podem comprar e que se oferece aos desejos. Sem ficar livre dos temores e dos desejos não se pode ter acesso à verdade.

O temor tem por objeto todos os que são diferentes: pessoas de outra etnia, outra religião, outra cultura, outro nível social. Vencer os limites da sua cultura e ficar aberto é o desafio. Sem essa liberdade, não é possível ter acesso à verdade. O ser humano tem um valor intrínseco que vai além das aparências e que se operacionaliza na forma como se relaciona com os outros. A capacidade amorosa, o respeito, a aceitação das diferenças, a comunicação, o não julgamento, o desejo de ver o outro feliz, a bondade, a verdade e a alegria são algumas qualidades, entre tantas, que favorecem o florescimento de relações construtivas.

Essas são as condições que abrem o acesso à verdade. De alguma maneira todas as sabedorias ensinaram coisas semelhantes. Não é novidade essa educação da liberdade. O não identificar-se com os impulsos.

Buda foi enfático com a problemática do desejo. Uma das bases da felicidade seria apreciar sem desejar. A Globalização está centrada no consumo e apelação aos desejos, motivando um movimento de regionalização e defesa.

A verdade manifesta‑se dentro de um movimento de esperança que envolve a libertação progressiva. As pessoas não devem aceitar‑se tal como estão sendo envolvidas. Mas é tudo uma opção. São chamadas a um desafio imenso que envolve a totalidade do ser humano, diante de diferentes apelos filosóficos, artísticos, religiosos e científicos. Esse posicionamento é da própria pessoa, chamada a conquistar a sua liberdade, a tornar‑se plenamente humana e em harmonia com a Natureza.

Se levarmos nossas vidas com amor, ainda que não consigamos inteiramente realizar nossos desejos, valeu a pena. Demos um sim à vida e nos sintonizamos com a realidade. O autoconhecimento, a auto-aceitação, a sinceridade com os próprios sentimentos e o desejo profundo de aprender a se amar é o verdadeiro caminho para a plenitude e o significado da vida.

Esse poema foi escrito por um aluno da APAE, chamado, pela sociedade, de excepcional. Excepcional é a sua sensibilidade! Ele tem 28 anos, com idade mental de 15.

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